quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

é só um filme de amor

do começo ao fim
Eu já havia falado desse filme por aqui, mas agora eu assisti. E adorei. Desse mesmo diretor eu já tinha visto Um copo de cólera, que não gostei. Mas achei ousado, diferente. Achei ruim, mas ousado. E tava muito curiosa pra assistir esse, que me surpreendeu muito.

É u
m filme super sensível, sem grandes polêmicas apesar da dupla polêmica: homossexualismo e incesto. Alias, foi o que mais gostei no filme, a polêmica não é “apresentada”. Não existe um diálogo específico pra tratar do assunto, pra problematizar a relação. Não existe isso. Ao mesmo tempo ninguém finge que não vê. Os pais percebem. E comentam. Mas não criam uma questão, um dilema, nada. É só uma história de amor entre dois meninos, depois homens que, por acaso, são irmãos. O amor dos pais também é mostrado de uma maneira muito bacana e verdadeira, o clima da casa deles é esse. Os atores são todos ótimos: as crianças, os meninos adultos, os pais, o pai argentino, a amiga da mãe, todos. A fotografia é linda, as cenas de nudez dos dois são bonitas e sutis, não há como lembrar que são irmãos. E ao mesmo tempo isso não é esquecido no roteiro.

O filme faz a gente parar pra pensar nessa questão de incesto. Obviamente ainda há muito que avançar na questão do homossexualismo. Mas o que o filme traz com a perspectiva dos irmãos, do tabu do incesto, acaba deixando a questão de serem dois homens um pouco em segundo plano. E isso é uma coisa legal do filme, pq ele está lá na frente, falando de algo que ainda não é nem cogitado, mas mantendo a questão atual, do amor entre iguais. Eu não sei direito qual tem sido o público desse filme, na sessão em que eu fui tinham muitos homens, muitos. Os atores do filme são lindos e talvez isso tenha atraído muito gente. Dava pra ver homens e mulheres super empolgados com isso. Mas eu espero que todo mundo que foi ver, pare mesmo pra pensar nessa questão do incesto. O que há de errado? Quando foi inventado? O único problema é evitar ter filhos? Vale à pena a discussão, repensar certas questões que nos foram passadas como convicções.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

World Press Photo 2009

Eraldo Peres (Brasil) - The Associated Press

Pessoas reunidas em torno do corpo de Thiago Franklino de Lima (21). Ele foi morto na favela do Coque, em Recife, no dia 22 de janeiro. O índice de mortalidade em Recife é duas vezes maior que o do Rio de Janeiro. No Coque, os jovens têm matado uns aos outros por conta do controle sobre áreas estratégicas de roubo a motoristas.

Essa coisa da indiferença com a vida (morte). A indiferença deles (foto). A minha. A sua. A gente não liga mais. E eu fico triste de não ligar mais para um monte de coisas.

Update: O Marcelo, fofo e sensível, reparou que a placa onde diz vende-se esta casa, olhando rapidamente, parece vende-se estacas. O fotógrafo, obviamente, reparou isso também. Música e separação de sílabas, a gente treina o olhar.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

infinita va

Eu queria saber: não é unânime achar ridícula a idéia de ter um site de relacionamentos composto apenas por pessoas bonitas? Alguém que lê esse blog tentou se inscrever ou teria curiosidade? Alguém sabe definir precisamente quem é ou não bonito?

Eu não vou entrar no mérito de como menosprezam o suposto feio, aquele que não está de acordo com os padrões e tals. Isso é óbvio. O que não entendo é que tipo de pessoa se submete a essa classificação feita pelos demais membros do tal site. E quem deu a inicio a brincadeira, era bonito realmente? Assim, bonito pra mim, pra vc e pra todos nós? Quais são os critérios?

Outra coisa, uma pessoa que se submete a avaliação dos outros é alguém hiper seguro da própria beleza que apenas quer se relacionar com pessoas mais “selecionadas”? Ou é um feio tentando se infiltrar? Essa última alternativa até que seria engraçada neste mundo tão cheio de gente fake. E tem os que não se inscrevem com medo de serem rejeitados, mas não pq acham patético.

Como tudo pode sempre piorar, o Brasil está numa ótima posição no ranking do tal site e muitas pessoas comentaram o quanto isso é legal. Inclusive nos jornais, como se estivéssemos bem no ranking de educação, saúde, transporte, índice de pobreza e etc. Se bem que com tanto investimento nesse tipo de coisa, deve-se comemorar mesmo. O Brasil é um dos maiores do mundo em cirurgias estéticas e quantidade de salões de beleza. Claro né, pq não temos mais com o que nos preocupar. Talvez por isso estejamos nos primeiros lugares neste site e em 82 no ranking de desigualdades de gênero. Enquanto incentivamos nossas mulheres (em maior quantidade que os homens) a gastar bastante com salões de beleza e lipoaspirações, elas ficam ocupadas e aceitam o lugar delas na sociedade. E tem gente que não percebe como as coisas estão interligadas. Alias, não entende como o Brasil é tão machista, oh, que horror. Quais são nossos valores?

A Suécia e o Brasil estão provando ser as nações esteticamente mais abençoadas do mundo. Eu diria que a Inglaterra está vacilando porque eles não investem muito tempo na aparência e estão se traindo em matéria de saúde física*. Ao lado das belezas brasileira e escandinava, o povo britânico não é tão espirituoso ou glamuroso*” Greg Hodge – diretor do site

Queria muito estar na Inglaterra numa hora dessas.

*Esse tipo de gente adora associar saúde a estética, coisas completamente diferentes e, em muitos casos, excludente.
* O Brasil é glamuroso?? Uau, ninguém vê isso pelas ruas. Chama o Greg aqui pra ele ver umas coisas

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

black in

Foto tirada daqui

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Tratado da Liberdade Individual

Quando eu tinha uns 11 anos um professor de OSPB (matéria obrigatória na época) não cansava de repetir que a nossa liberdade termina quando a do outro começa. E acho que essa frase resume o que deve ser enquadrado em regras de convivência social. Não existe sociedade sem regras.

O que me incomoda muito é quando as pessoas julgam, reprimem, se opõe a algo que não está lhes tirando a liberdade. E que não lhes diz respeito. Tudo que é individual e não atinge o outro, deveria ser tratado como uma decisão individual. Lembrei muito desse assunto por causa do caso Geisy/uniban, pq a última coisa que vi foi a participação dela no altas horas e a maior parte das pessoas questionando a roupa. Minha vontade é que ela respondesse um sonoro foda-se, eu visto o que quiser. Uma menina chegou a dizer que ela não achava aquela roupa adequada. Foda-se. Não gosta, acha estranho, bizarro, vulgar; simples, não use. Não é da sua conta. Você pode até não querer ser amiga da Geisy, mas não pode achar que tem poderes sobre as decisões dela. Se um vestido é tão inadequado assim pq formou-se uma massa dando destaque a ela? Pq simplesmente não ignoraram? O que eles tinham a ver com o vestido dela? E, ainda que ela fosse realmente puta, qual o problema?

O mesmo vale para a homofobia. O que tanto incomoda na sexualidade dos outros? O que temos a ver com a vida dos outros? O que muda na minha vida se meu vizinho for gay? Nada. O que a Igreja tem a ver com reprodução humana, células tronco ou clonagem?? Nada. Esse tipo de evolução da ciência vai prejudicar alguém? Não. Então é isso. Se vc é religioso não faça. Se sua religião não permite o aborto e vc se sente confortável assim, não faça. Mas por favor, não obrigue todo mundo a ter a mesma opinião. O aborto é até caso para um outro post, pq engloba a lei, não é só uma repressão social, é ainda considerado um crime.

video

Outro tema que me incomoda muito é a questão do suicídio. É sim muito triste, mas se restringe aos amigos e familiares essa tristeza. A decisão de se matar não é a pior opção feita por um individuo. Uma pessoa pode escolher várias coisas muito ruins, inclusive tirar a vida do outro. Quando ela resolver se matar, é uma decisão pessoal que devemos respeitar. Podemos lamentar a falta dela. Podemos ficar tristes. E só. O que mais vejo é gente culpando o suicida. Ele não podia fazer isso comigo. Ei, ele não fez isso com você, fez com ele mesmo. Tem um filme sobre isso que me impressionou muito, se chama: A Ponte. É um documentário baseado no índice de suicídios na ponte Golden Gate. Eu até escrevi sobre ele aqui, na época. Destacando esse lance dos americanos terem tanto sentido de preservação da individualidade que os familiares pareciam apáticos. Eles se conformavam no fim da contas.

O nosso corpo é nosso. E a gente dispõe dele como bem entender. Seja exercendo nossa sexualidade, interrompendo uma gravidez, se entorpecendo, se mutilando e até se matando. É meu direito fazer o que quero comigo mesma.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

essa mulher

ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher

ela goza com o sabonete
não precisa de você
ela goza com a mão
não precisa do seu pau

ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher

que não sente a sua falta
e quando você chega em casa
ela não sente a sua presença
ela tem um travesseiro mais macio
do que o seu braço
e um acolchoado muito mais quente
que o seu abraço

ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher
Arnaldo Antunes

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O que se espera de uma universidade?

“Acreditamos que o espaço universitário deve ser local de construção de conhecimento que possa contribuir para a superação dos valores, vícios e práticas machistas, e não de referendá-las.”
Trecho da Carta Aberta à Comunidade Acadêmica da UNB


Esses valores, vícios e práticas machistas não são exclusivos da uniban. Portanto, isso poderia ter acontecido, e *acontece*, em qq outra universidade. O que se deve questionar é quais são as atitudes e agentes de mudança. O protesto dos alunos da UnB é uma expressão de análise critica e liderança no sentido de exigir mudanças, inclusive em sua própria instituição. Então me impressiona que no pós caso do vestido, ninguém tenha refletido e manifestado repúdio a isso lá na uniban. Ao contrário, a direção decide expulsá-la através de um tal conselho bastante duvidoso, já que convicto que estava fazendo o certo, desistiu no outro dia por pressão da mídia. O espaço universitário deve ser inclusivo e de reflexão. E não um mero distribuidor de diplomas pagos a prestações.

* Uma atriz fez um teste indo com um vestido curto e transparente a outras universidades e veja só o que acontece.

* Pesquisando o grupo Klaus que atua na UnB e liderou o protesto, achei uma iniciativa de inclusão representativa dos gays no dia dos namorados. Os alunos faziam declarações anônimas ou não, assim como os demais estudantes heteros.

Repara que no cartaz existe uma manifestação negativa, agressiva e homofóbica. E parece q eles deixaram lá, de propósito, justamente para gerar debate sobre o comportamento das pessoas. Isso é espaço reflexivo e crítico. Pq o preconceito, sexismo, machismo e etc estão ai. O caso da uniban só expôs, ilustrou pra gente. Ah, e repara também na mensagem. O importante é ser homem. O gay estaria abdicando do direito a ser superior (homem). Nas mensagens das meninas não há protestos como: seja mulher! E o que é ser homem e ser mulher? Enfim.

Os preconceitos e exclusões estão sempre interligados e seguem uma lógica única de intolerância. O preconceito é enraizado através das sutilezas. São elas que impulsionam a massa que grita: "puta, puta". O preconceito é uma construção diária. Então precisamos desconstruir diariamente também.

A atitude de julgar a estudante a partir da roupa que trajava, sesustenta nos valores discriminatórios que integram a sociedade capitalista que vivemos, onde as representações sociais da mulher se baseiam numa ótica de subserviência masculina. Ao invés de culpabilizar a estudante pela roupa que usava, é preciso questionar o processo de mercantilização do corpo feminino, e a lógica patriarcal que define que as mulheres não podem decidir o que vestir, o que falar, o que fazer. Na raiz dessa manifestação bárbara ocorrida na UNIBAN, existem os mesmo valores machistas que levam milhares de mulheres a serem vítimas de estupros, violência física e mesmo assassinatos. A agressão contra Geyse é uma violência a todas as mulheres.” Trecho da Carta Aberta à Comunidade Acadêmica da UNB